Máquinas de US$ 400 milhões: ASML consolida domínio sobre a próxima geração de chips

Enquanto empresas como Nvidia, AMD, Intel e TSMC disputam os holofotes da indústria de semicondutores, existe uma companhia europeia muito menos conhecida pelo público que ocupa uma posição ainda mais difícil de substituir.

A holandesa ASML é a única empresa do mundo capaz de fornecer, em escala comercial, as máquinas de litografia EUV usadas para fabricar os chips mais avançados do planeta.

Agora, essa posição pode ficar ainda mais forte.

Fabricantes como Intel, TSMC, Samsung e SK Hynix estão avançando na adoção de uma nova geração de equipamentos chamada High-NA EUV. Cada sistema pode custar cerca de US$ 400 milhões — aproximadamente o dobro de uma máquina EUV convencional.

E o motivo para pagar tanto é simples: fabricar transistores ainda menores e mais avançados.

O que é High-NA EUV?

A fabricação de chips modernos depende de um processo chamado litografia.

De forma simplificada, essas máquinas projetam padrões extremamente pequenos sobre wafers de silício. Esses padrões formam posteriormente os bilhões de transistores existentes dentro de processadores, GPUs e chips de memória.

A tecnologia EUV, sigla para Extreme Ultraviolet Lithography, utiliza luz ultravioleta extrema para imprimir estruturas microscópicas com enorme precisão.

O High-NA EUV é a próxima evolução dessa tecnologia.

O termo “NA” vem de Numerical Aperture, ou abertura numérica. Ao elevar esse valor de aproximadamente 0,33 para 0,55, a nova geração consegue trabalhar com estruturas cerca de 40% menores que os sistemas EUV atuais.

Na prática, isso ajuda fabricantes a continuar reduzindo os componentes internos dos chips e aumentando a quantidade de transistores que pode ser colocada em determinada área.

Uma máquina de US$ 400 milhões

O avanço tem um preço.

Segundo a Reuters, uma máquina High-NA EUV custa aproximadamente US$ 400 milhões, enquanto equipamentos EUV da geração atual ficam na faixa de US$ 200 milhões.

Não estamos falando, porém, de uma máquina convencional de fábrica.

Um sistema desse tipo é composto por dezenas de milhares de componentes de altíssima precisão e depende de uma cadeia global especializada em óptica, lasers, sistemas mecânicos e controle extremamente sofisticado.

Mesmo com esse custo gigantesco, grandes fabricantes de semicondutores estão preparando sua adoção.

A Intel foi uma das primeiras empresas a apostar fortemente no High-NA e já utiliza a tecnologia em produção em algumas camadas do processo Intel 18A. Segundo ASML e Intel, mais de 1 milhão de wafers já passaram por sistemas High-NA considerando certificação, pesquisa, desenvolvimento e produção.

A TSMC, maior fabricante de chips por contrato do mundo, também está avançando com a tecnologia. A empresa trabalha com a ASML em iniciativas relacionadas ao futuro do High-NA e planeja sua adoção industrial nesta década.

Já a Samsung anunciou planos para utilizar High-NA EUV em futuras gerações de memória DRAM.

O verdadeiro poder da ASML

Esse cenário é especialmente importante porque praticamente não existe uma alternativa direta à ASML.

Segundo dados citados pela Reuters, a companhia controlava cerca de 94% do mercado mundial de equipamentos de litografia em 2025. No segmento EUV mais avançado, sua posição é ainda mais extrema: a ASML continua sendo a única fornecedora comercial da tecnologia.

Empresas como Canon e Nikon continuam presentes no mercado de litografia, principalmente em tecnologias anteriores, mas nenhuma delas atualmente oferece um equivalente comercial aos sistemas EUV da ASML.

Isso cria uma situação incomum na indústria de tecnologia.

Uma empresa pode projetar a melhor GPU do mundo.

Outra pode possuir fábricas capazes de produzir centenas de milhares de wafers.

Mas, para fabricar os chips mais avançados, elas acabam dependendo de equipamentos produzidos por uma companhia localizada em Veldhoven, na Holanda.

A corrida da inteligência artificial passa pela ASML

O crescimento da inteligência artificial deixou essa posição ainda mais estratégica.

Modelos cada vez maiores exigem enormes quantidades de capacidade computacional. Isso aumenta a demanda por GPUs, aceleradores especializados e memórias de alta largura de banda, como HBM.

Para entregar mais desempenho sem simplesmente aumentar indefinidamente o consumo de energia e o tamanho dos chips, a indústria precisa continuar avançando seus processos de fabricação.

É justamente aí que entram tecnologias como o High-NA EUV.

A própria ASML está aumentando sua capacidade de produção diante da demanda. A empresa afirma estar praticamente comprometida com encomendas de equipamentos EUV até 2027, enquanto avalia ampliar ainda mais a produção nos anos seguintes.

Ou seja: a infraestrutura física por trás da corrida da IA começa muito antes dos data centers.

Ela passa por fábricas de semicondutores, equipamentos de litografia e uma cadeia de fornecedores extremamente especializada.

Por que não é simples criar uma concorrente?

Em teoria, uma posição tão dominante deveria atrair concorrentes rapidamente.

Na prática, reconstruir décadas de pesquisa e uma cadeia de fornecedores desse nível é extremamente difícil.

A ASML investiu € 4,7 bilhões em pesquisa e desenvolvimento somente em 2025. No mesmo ano, a companhia vendeu 48 sistemas EUV, além de centenas de outros equipamentos de litografia, metrologia e inspeção.

Além disso, várias tecnologias críticas utilizadas dentro de um sistema EUV também vêm de fornecedores altamente especializados.

O resultado é uma barreira de entrada que não depende apenas de dinheiro.

Ela envolve conhecimento acumulado, propriedade intelectual, fornecedores especializados, experiência industrial e anos de desenvolvimento.

Um dos maiores gargalos tecnológicos do planeta

Quando pensamos na disputa por inteligência artificial, normalmente os nomes lembrados são Nvidia, Microsoft, OpenAI, Google, Amazon ou TSMC.

Mas existe uma camada ainda mais fundamental.

Antes de executar um modelo de IA, alguém precisa fabricar os chips.

E antes de fabricar alguns dos chips mais sofisticados do mundo, alguém precisa fabricar as máquinas capazes de produzi-los.

Hoje, essa empresa é essencialmente a ASML.

Com sistemas High-NA EUV de aproximadamente US$ 400 milhões sendo adotados pelos principais fabricantes de semicondutores, a companhia holandesa pode continuar ocupando uma das posições mais estratégicas — e difíceis de substituir — de toda a cadeia tecnológica global durante a próxima década.

Fonte principal: Reuters, 14 de setembro de 2026. Informações adicionais: ASML, Intel, TSMC e Samsung.

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